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Eliezer Yudkowsky, pesquisador do Machine Intelligence Research Institute, escreveu que “de longe, o maior perigo da Inteligência Artificial é que as pessoas concluem muito cedo que já a compreendem”. O sentido de sua afirmação é que é difícil avaliar os riscos ligados a uma área de desenvolvimento tecnológico de vanguarda, sem muitos estudos precedentes nos quais se basear, mas, principalmente, quando a maioria das pessoas já julga saber os seus efeitos.

Tudo bem, é preciso entender melhor o que cada novo salto tecnológico significa e suas aplicações, antes de condenar ou absolver sua ocorrência. Por outro lado, a velocidade com que as mudanças chegam tem nos trazido alguns sustos e sobressaltos, ao causar, às vezes, mudanças paradigmáticas.

Eis que de um lado alguns especialistas produzem (como nunca) análises de tendências e relatórios de foresight sobre inteligência artificial, edição do genoma humano, internet das coisas, entre outros que tais. Do outro lado há uma multidão tentando entender o jogo para não ficar fora dele e, se der, descobrir como tirar proveito de alguma novidade.

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Há alguns dias, ao postar uma notícia no Facebook sobre como a adoção de machine learning por uma empresa teria substituído a função dos advogados, o portal Startse provocou um burburinho. Os comentários ilustravam as muitas reações diante de mudanças disruptivas, trazidas pela adoção de inovações tecnológicas em funções tradicionais, e tornou-se inevitável que os advogados, ainda que leigos em inteligência artificial, vissem aí um sinal de alerta. Perderão o emprego para um robô?

Quatro dias após a publicação, o artigo com o título “Robô faz em segundos o que demorava 360 mil horas para um advogado” provocou 720 compartilhamentos e a reação de 497 pessoas que comentaram as suas mais diversas impressões. A minha foi de que o autor queria mesmo ser provocativo e conseguiu, talvez utilizando um robô-jornalista especializado em frases de efeito para angariar cliques.

Bem, você deve saber por experiência que os comentários da internet são um grande termômetro da sociedade e, nesse caso, mostrou as diversas reações à notícia de que entre outras coisas, “o software revê os documentos em segundos, é menos propenso a erros e nunca pede férias”. Havia pessoas que se sentiam desforradas por poder depender menos do “Judiciário”, mas a maioria aparentava ser de advogados incomodados pelo tom das afirmações. Alguns, reagiram acolhendo cum granu salis à perspectiva de colegas-robôs, enquanto outros, responderam com veemente objeção à ideia de que um robô-advogado é capaz de substituir – com vantagens – a atividade advocatícia.

Já ouvi respeitados juristas manifestarem repúdio ao emprego da expressão “operadores do direito”, pois alegavam, grosso modo, que “operar o direito” não estaria à altura do “pensar o direito”, reforçando uma visão reducionista do papel que deveria ser reflexivo e prudencial. Fico imaginando o que terão pensado do robô-advogado.

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Quando as inovações disruptivas saem dos relatórios de tendências e tocam a vida do cidadão comum antes que ele tenha assimilado o que está acontecendo, a chance é grande de que ele venha a reagir a partir de seus medos, amplificados pela crescente ausência de confiança entre pessoas e instituições. A maneira de conduzir processos de mudança, tão necessários em tantas profissões e, é claro, também em nossa Justiça, deve ser levando em conta aquilo que os robôs não possuem, isto é, empatia para com outra pessoa.

Para além das disputas de poder eventualmente embutidos nos processos de transformação, há pessoas que genuinamente gostariam de colaborar com a melhoria das empresas, das ONGs, do governo, se ao menos pudessem entender o que está acontecendo. Acredito que esse é o caso também de muitos dos advogados que reclamaram da notícia, pois se viram alijados da conversa em que foram virtualmente prescindidos, quando poderiam enveredar entusiasticamente por um caminho de transformação da sua atividade se tivessem encontrado um espaço para conversar e compreender as novas soluções apresentadas.

É necessário que nosso entusiasmo com as possibilidades tecnológicas seja acompanhado de genuína empatia pelo outro, reafirmando o que nos torna essencialmente humanos e, portanto, insubstituíveis.


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Guilherme Rosa

Guilherme Rosa

Guilherme Rosa é formado em Comunicação Empresarial e trabalhou como designer em assessorias, agências e na indústria, antes de se ver fisgado pelo desafio de fazer a diferença no setor público. Como analista, trabalhou em projetos de desenvolvimento territorial, modernização administrativa, prospecção de cenários, sempre polinizando ideias, conectando pessoas e promovendo uma cultura de inovação no setor público.

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