Você já ouviu falar em linha do desejo? A expressão foi criada pelo filósofo francês Gaston Bachelard para definir o que chama de trajeto social: aquele caminho que fica marcado, a terra fica batida, a grama fica amassada, abrindo um espaço que mostra por onde as pessoas realmente querem passar. A marca no chão, que Bachelard chamou atenção de sua existência na década de 50, pode levar à reflexão para uma necessidade mais global: será que as instituições públicas estão vendo e assimilando as linhas de desejo traçadas pela sociedade? Quais são os anseios e as necessidades da população?

Tendo em vista a existência de 191 países com culturas, instituições, economias e tantas características diferentes, é impossível responder prontamente à questão. Mas é possível confirmar uma nova tendência, por meio da afirmação de um dos maiores especialistas do mundo em estratégias de inovação para a construção de governos do futuro, Geoff Mulgan: “todos podemos aprender uns com os outros e o setor público deve compartilhar e ouvir o conhecimento da população”.

“Todos podemos aprender uns com os outros e o setor público deve compartilhar e ouvir o conhecimento da população” – Geoff Mulgan (NESTA)

Mulgan é CEO da NESTA, entidade britânica voltada para o apoio à inovação nos segmentos público, social e startups. Ocupou vários cargos no governo britânico, inclusive durante o comando de diferentes partidos, o que para ele significa trabalhar não por uma ideologia de direita, centro ou esquerda, mas pela sociedade.

Em passagem por São Paulo, a convite da Unidade de Inovação do Governo do Estado – iGovSP, ele falou sobre os desafios de inovação pensados pela NESTA, que investe em projetos em estágio inicial, faz pesquisas, lança desafios públicos para a resolução de problemas e/ou aproveitamento de oportunidades e executa programas diversos. Hoje, a entidade abriga cerca de 200 técnicos. Perto da metade compõe um Laboratório de Inovação, para desenvolvimento de projetos, 25% fazem pesquisas de políticas públicas e outros atuam na gestão de investimentos em projetos inovadores.

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Provocativo, Mulgan afirma e confirma com dados, claro, que alguns estudos mostram que, não necessariamente, quanto maiores forem os gastos em saúde, menos sucesso se obtém para manter uma pessoa viva. “Dinheiro não é igual a inovação”. É claro que isto pode parecer simples demais ao tratarmos do complexo serviço de saúde brasileiro, mas o que na gestão pública depende de dinheiro e o que depende de uma melhor organização do sistema? O fato é que é preciso pensar em novos modelos.

“Dinheiro não é igual a inovação” – Geoff Mulgan (NESTA)

O processo é longo, mas a base para a geração de novas estruturas de funcionamento do setor público é, para Mulgan, foco na geração de ideias e abertura para elas chegarem de todas as vozes da sociedade. Exemplo disso é a nova tendência de criação de I-Teams (sigla para Inovation Teams), equipes específicas para gerenciar a inovação em governos, que pensam em soluções para os problemas urbanos e que, para isso, sabem explorar a experiência (ou podemos chamar de linhas de desejo?) dos cidadãos.

O resultado: criação de novos serviços que mudam o comportamento, gastam menos recursos e – o principal – geram aquele produto que não tem preço, a felicidade.

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Nos governos do futuro teremos dois tipos de servidores: os que recebem em dinheiro e os que recebem em gratidão. Pode parecer utópico, mas a NESTA vem criando metodologias para a formação de mentores que treinam pessoas para atuarem em hospitais, escolas e demais órgãos públicos atendendo a população em apoio aos professores, médicos e outros profissionais. Muitos podem achar um absurdo, mas para outros o sorriso de uma criança ou a ajuda na cura de um doente tem um valor imensurável.

Para criar estes processos, a parceria com a população deve vir junto do investimento em novas tecnologias, design thinking e gestão de dados, que somados trarão resultados mais práticos, menos burocráticos e mais rápidos.

Certa vez, aqui em São Paulo, em uma audiência pública realizada pela Prefeitura sobre mobilidade urbana, um senhor disse: “cansei de andar por trajetos suásticos na cidade”. A referência ao desenho da marca nazista faz refletir também sobre a rigidez do desenho urbano de nossas cidades. Quem vive em São Paulo sabe que muitas vezes o ato de atravessar uma rua pode se tornar uma epopeia na busca pelas faixas de pedestres. Será que o cidadão não tem a resposta para resolver este problema? Tenho certeza que sim.

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Marília Taufic

Marília Taufic

Atuo na comunicação de órgãos públicos desde 2006. Atualmente sou coordenadora de mídias sociais no Ministério Público do Estado de São Paulo, formada em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero e pós graduada em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

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