Um fato histórico que chama a atenção é a capacidade do Japão ter se reerguido após ter sido inteiramente devastado após a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945). Um dos pontos mais importantes dessa superação foi o modelo gerencial utilizado para a alavancagem da economia industrial, conhecido como Produção Enxuta, ou Toyotismo na indústria automotiva.

O fluxo de produção industrial praticado até então, era produzir primeiro e vender quando já dispunham de grandes estoques. Porém, as indústrias japonesas com recursos limitados não podiam arcar com custos de estoques e excedentes de produção em um mercado economicamente frágil. Nesse sentido, a Produção Enxuta sugere que toda a cadeia de suprimento e sistemas de produção tenham a capacidade de se moldar para atender demandas específicas. Essa estrutura flexível faz com que “o que é produzido” e “como é produzido” acompanhe a demanda.

O tema Produção Enxuta passou por adaptações para diferentes contextos. Atualmente, Eric Ries apresenta no livro “A Startup Enxuta” um modelo de gestão que utiliza princípios do pensamento enxuto para Startups. O ponto central é que as startups devem construir seus modelos de negócios a partir de experiências reais bem sucedidas, considerando os erros que podem ser cometidos ao longo da jornada na tentativa de validar a proposta de valor de seus produtos e serviços.

Indústria, Startup e Governo

Assim como na Produção Enxuta, a manufatura se flexibiliza conforme as solicitações do mercado, uma startup deve ter todo o modelo de negócio ajustável às percepções e feedbacks dos clientes (percepções estas, que mudam em ritmo cada vez mais acelerado). Percebe-se que a Produção Enxuta ou a Startup Enxuta possuem suas estruturas flexíveis e suas atividades concentram-se em atender objetivos e solicitações de clientes reais, retirando da operação atividades não relacionadas ao que o seu público espera.

Por outro lado, o setor público possui uma estrutura mais rígida e, por vezes, falta flexibilidade para responder com mais agilidade aos feedbacks dos cidadãos, e pragmatismo para transformar a criatividade em soluções inovadoras. Nesse sentido, surge uma nova proposta – a aplicação do Pensamento Enxuto no Governo. Trata-se de uma tentativa de transformar o setor público em uma instituição catalisadora de ideias em soluções.

Mantendo a essência do Pensamento Enxuto, gestores públicos podem desenvolver novas soluções com uma dinâmica ágil e flexível a partir da interação, iteração e testes em pequena escala com o cidadão. O feedback gera aprendizados significativos para que programas sejam lançados com sua proposta de valor validada, o que permite investimentos públicos mais assertivos.

O Governo com Pensamento Enxuto: The Lean Government

Diferentemente do setor privado, o Governo não pode “segmentar mercado” e escolher ter uma expertise de negócio para uma população única específica. O governo representa toda a população e por isso precisa desenvolver programas para toda a sociedade. Justamente essa característica única torna a gestão pública especialmente complexa.

Na tentativa de atender toda a população que a esfera representa, o governo acaba assumindo grandes riscos para lançar programas com escalas gigantescas de uma vez. Por mais que seja uma ação bem intencionada é incrivelmente difícil criar serviços em grande escala, com indicadores de resultado efetivos, e experiência positiva para todos os envolvidos.

Uma vez lançados os serviços, o custo de adequação às necessidades é lento e custoso – é sempre “Um Maracanã” de tudo. Por outro lado, o Pensamento Enxuto propõe que somente a partir da constatação empírica de valor, em escala menor, para o cliente – no caso aqui, cidadão – se construam operações maiores.

Grandes volumes de recursos podem ser alocados desenvolvendo serviços e funcionalidades que não necessariamente são prioridades do cidadão ou deixando de atender expectativas importantes. Além disso, ao despender um longo período construindo um projeto com pouca agilidade, corre-se o risco das expectativas terem mudado entre o período de ideação até o lançamento.

Ciclo de Feedback (Construir – Medir – Aprender)

O Ciclo de Feebdack é um tema central do livro “A Startup Enxuta” e pode dar insights sobre como o Pensamento Enxuto pode ser aplicado no Setor Público.

Para manter a estrutura do governo flexível, é importante que ela se entenda como um “laboratório”. O resultado dos seus “experimentos” é o aprendizado sobre como desenvolver uma instituição sustentável. Por isso, a consolidação de programas precisa passar por ciclos estruturados de aprendizado.

O ciclo de feedback se inicia com uma ideia de oportunidade. Nesse momento só se tem uma hipótese, ou uma suposição de que o cidadão (ou o próprio governo, se for um projeto interno) precisa de algo. Também se levantam hipóteses sobre como o beneficiário irá perceber o novo serviço, quais são os entraves envolvidos na adesão, entre outras hipóteses que se julgar interessante mensurar. Com essa ideia, o “empreendedor público” deve construir um protótipo simples, com o único objetivo de testar as hipóteses e receber feedbacks quantitativos e qualitativos.

A partir da experimentação, comprova-se ou refuta-se as hipóteses, gerando o aprendizado para subsidiar a decisão de mudar a estratégia inicial ou perseverar em escalas maiores. O benefício dos marcos de aprendizagem é perceber, logo em fases iniciais, qual parte da ideia é brilhante e qual é absurda, na prática.

Mudando de direção rapidamente

A prática de se criar cargos, departamentos e procedimentos apenas “para inglês ver“, não são adequadas ao conceito de “lean Government”. Um Governo Enxuto não significa necessariamente um Estado menor, com menos servidores, recursos disponíveis ou serviços públicos. O termo “Enxuto” atribui um novo significado sobre o papel da “estrutura organizacional”. Neste modelo, a estrutura se molda conforme a jornada de descobertas empíricas sobre como resolver os problemas da instituição.

O Pensamento Enxuto é especialmente valorizado e aplicado em contextos de crise e incerteza. Ao incorporar esse modelo na sua instituição, o desafio é fazer o ciclo de feedback girar cada vez melhor e mais rápido. O volante não pode parar.

A WeGov entende que o desperdício no processo de inovação em governo pode ser evitado, desde que as causas dos desafios das instituições sejam compreendidas profundamente. Para descobrir como ir além do discurso e entender porquê inovar no governo, entre em contato com a gente.

Lincon Shigaki

Lincon Shigaki

Lincon Shigaki é formado em Administração na Universidade Federal de Santa Catarina. Trabalhou com consultoria em gestão no Movimento Empresa Júnior, onde foi Presidente da Ação Júnior e da Fejesc. Possui uma fé inabalável que podemos viver em um país melhor, e não consegue se ver fora do processo de transformação dessa realidade.

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